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"Sou historiadora, especialista em Gestão do Patrimônio Cultural e mestranda do curso de Pós-Graduação em História Social da Cultura pela UFMG. Eu trabalho com projetos culturais de pesquisa histórica e recuperação de acervos da cultura popular desde 1986 seguindo essa trajetória de preservação da memória do patrimônio cultural. Status de "Bem Público"
Entendo a Banda Mole enquanto patrimônio cultural e material de Belo Horizonte. Então para fazer o livro, a idéia da pesquisa foi apurar a origem desta manifestação cultural, como ela é. Fazer um registro, uma vez que aquela Banda Mole das décadas de 70 e 80 é muito diferente da qual hoje a gente conhece. Então é falar para as pessoas qual é o significado dessa festa de acordo com os motivos a partir dos quais ela foi criada.
Atualmente estou trabalhando em outro projeto de manifestações da cultura popular e as tradicionais bandas de música de Belo Horizonte são o objeto de pesquisa. A idéia é fazer um histórico de cada uma, mesmo as que não existem mais. Pretendemos fazer um grande encontro de bandas, um livro a ser doado, uma exposição itinerante com o material levantado durante as pesquisas. Ela transitará pelos centros culturais da cidade, escolas ...
E dependendo dos recursos faremos um vídeo também".
O livro
"O processo de pesquisa foi baseado na metodologia de história oral porque tratar-se de um objeto de estudo recente, de 30 anos atrás. Sendo assim tivemos condições de encontrar e escutar pessoas que participaram diretamente da criação da banda, entrevistamos pessoas que participaram, bem como as que simplesmente "viram a banda passar". Resumindo, respeitamos três fontes de pesquisa: entrevistas/depoimentos, material infográfico, e acervos da cidade, como documentos escritos, iconográficos. As fotografias são um exemplo.
A coordenação geral da pesquisa foi de minha responsabilidade. Tive o auxílio de dois estagiários do curso superior de História, a Alessandra Andrade e o Farley Bertolino, de três fotógrafos, Jotaerre, Maurício Guimarães e Rita Cupertino, do digitador Cláudio Cendan, da revisora de texto Eliane Jesuíno, e do designer gráfico Diogo Magalhães.
O projeto teve o patrocínio da Prefeitura de Belo Horizonte através da Lei Municipal de Incentivo à Cultura. Tivemos o apoio do programa BMG Cultural para o lançamento, ocorrido em junho de 2005, quando houve uma exposição de fotografias e noite de autógrafos".
"Sociedade etílico-musical..."
"Desde que Belo Horizonte foi construída ela teve um carnaval de rua. Tinha corso, festa, tiveram muitos blocos caricatos em um algum momento. Durante as pesquisas alguns dos entrevistados disseram que eram oriundos dos antigos blocos, principalmente do "Leões da Lagoinha". Afinal, haviam vários blocos na cidade, eles desciam para desfilar na Afonso Pena.
Então essa idéia de fundação da Banda Mole foi de um grupo de amigos que queriam recuperar esse carnaval de rua que estava perdido na memória. Eles relataram que Belo Horizonte em 1975 não tinha mais carnaval com os blocos, com o desfile do corso. Havia investimento nacional e apoio maior na criação das escolas de samba, mesma época do fortalecimento das Escolas de Samba do Rio de Janeiro.
A Banda Mole não foi criada para ser um bloco carnavalesco do tipo o "Leões da Lagoinha", muito menos com a intenção de desfilar precisamente nos dias de carnaval. Eles queriam resgatar, por exemplo, as antigas e famosas "batalhas de confetes". Por isso optaram por promover o encontro dos adeptos da Banda Mole em um final de semana antes do carnaval oficial. Escolheram o sábado.
O carnaval sempre foi usado como ocasião quando os papéis sociais são invertidos em relação ao que é tradicional. O rei vira pagem, nobre vira pebleu, a mulher religiosa veste de prostituta e vice e versa. Ah, o homem veste de mulher!"
Irreverência sim, anarquia não!
"Dos fundadores da Banda Mole entrevistamos o Helvécio de Góes Trotta, José Marques, Luiz Eduardo Pacheco, Luis Mário Ladeira, Paulo Bonome. Eles são oriundos de blocos anteriores, gostam muito de carnaval. Eles tinham o hobby de todo final de semana jogar futebol, depois se reuniam para tomar umas cervejas. Em uma dessas reuniões um deles deu a idéia de fazer um bloco como tinha antigamente. Afinal concluíram que a cidade estava muito pacata. Então fundaram um bloco de homens vestidos de mulheres, saíram brincando com as pessoas que durante o trajeto iam encontrando. E quem queria acompanhava o grupo. Mais pessoas começaram a entrar. Era um evento muito democrático.
Em março de 1975, fizeram o primeiro desfile. Saíram da rua Grão Mongol, no bairro Carmo Sion, a partir da padaria onde eles se reuniam frequentemente, e percorreram a região. Seguiram a avenida do Contorno rumo à praça da Liberdade, ficaram lá um tempo e retornaram. Aos poucos, com o passar dos anos, eles mudaram o local da saída. Mas o trajeto que ficou tradicionalmente conhecido iniciava na rua Goiás com rua da Bahia, em frente ao jornal "Estado de Minas" onde acontecia a concentração, subia a rua da Bahia e terminava na rua Fernandes Tourinho, na Savassi. Foi assim do início da década de 80 até o ínicio da primeira década de 2000.
Neste primeiro ano eles desfilaram também no dia da comemoração do aniversário de Belo Horizonte. Consideraram a data convidativa para terminar em carnaval. Em alguns anos, no dia do trabalhador eles também desfilaram. E é daí que vem o tradicional mote da Banda Mole "Pernas Pro Ar Que Ninguém É De Ferro".
Até o ano de 2002, a Banda Mole seguiu este mesmo trajeto. Foi o ano de maior número de participantes, passou de 350 mil pessoas segundo apuração do jornal "Estado de Minas". A nota lamentável foi o registro de inúmeras confusões ocorridas entre os foliões.
Não localizamos um registro de represália contra o evento, ou à sua proposta. Vale lembra que o momento quando ela foi criada, o Brasil sofria a ditadura militar. A banda nunca foi um movimento político. Claro que em algum momento ela pode ter sido usada por algumas pessoas como bandeira de protesto. Mas não foi nem observado. A Banda Mole é intencionada à promover uma verdadeira "esculhambação".
Um exemplo disso foi um episódio inusitado ocorrido em 1986... Quando a banda passava em frente a Basílica de Lourdes, à rua da Bahia, os foliões "travestidos de mulher" não resistiram apenas em ver um casal que acabara de sair da cerimômia de casamento receber os cumprimentos dos convidados. Muitos do bando entraram na fila para beijar o noivo e aparecer na foto oficial".
Estilo belorizontino resistiu
"Com o passar do tempo, o caminhão que carregava a Banda do Bororó foi substituído pelos trios elétricos. Mas a tradicional banda continuou saindo à frente deles. E apesar da inserção de inúmeros trios e do ritmo musical do axé baiano que se espalhou pelo Brasil todo, não se fez aqui em Belo Horizonte um carnaval à moda baiana. Porque mesmo quando se tentou fazer venda de abadás, quando implantou o cordão de isolamento com seguranças, a exemplo do que acontece em Salvador, não deu certo. Foi em 2000. Os belorizontinos estão acostumados com a Banda Mole sendo um lugar de todos, na rua, para todo mundo".
Ampliação para acompanhar a época
"Em 2003, o evento não aconteceu por causa da falta de verba suficiente para arcar com os custos do evento gigantesco. A verba que seria investida pelo poder público da cidade foi destinada ao amparo aos desabrigados das chuvas que assolaram Belo Horizonte à epoca.
Em 2004, a Banda Mole não saiu novamente porque os organizadores do evento não conseguiram em tempo hábil a licença ambiental que cabe a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte conceder. Houve uma série de desencontros entre as duas partes no que diz respeito aos assuntos burocráticos.
Em 2005 a Banda Mole saiu e percorreu um novo trajeto: a avenida Afonso Pena, na área em frente ao Parque Municipal. Foi montado um circuito. A mesma estrutura foi adotada agora em 2006".
"Em 2004 foi instituído pelo poder público de Belo Horizonte, através da Lei nº 8921 de 27.07, o "Dia Municipal da Banda Mole", decretando-o oficial no último sábado antes do carnaval. A partir de então garantiu ao Poder Executivo a obrigação de programar as atividades do dia. A Banda Mole ganhou o status de "Bem Público" da cidade de Belo Horizonte".