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O sol não bate mais nas janelas ...
Por Paulo Márcio Santos - Jornalista
Convidado Click Especial
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Renato, de Manfredini para Russo![]()
Apreciador dos escritores
românticos e dos poetas ingleses, Renato era um leitor voraz. Por sinal, adotou o "Russo" de seu nome artístico em homenagem ao pensador francês Jean-Jacques Rosseau, ao pintor Henri Rousseau e ao matemático e filósofo inglês Bertrand Russel.
Renato Manfredini Júnior nasceu em 27 de março de 1960, no Rio de Janeiro. Filho de uma família de classe média, ainda criança morou em Nova York. Ele teve uma juventude marcada por problemas de saúde. Dos 15 aos 17 anos, sofreu de uma doença chamada epifisiólise, de fundo virótico, e foi obrigado a andar em uma cadeira de rodas. Sofreu uma cirurgia para colocação de pino de platina e, por causa da dor, não saía de casa.
Mudando-se depois para Brasília, formou-se em jornalismo. Antes de chegar ao show business, foi repórter e lecionou inglês.
O poeta de uma vasta legião
Ao longo dos 12 anos em que se manteve entre os primeiros lugares nas paradas de sucesso, o cantor e compositor Renato Russo, líder do grupo Legião Urbana, consolidou a fama de excelente letrista, intérprete sensível e pensador polêmico, conquistando milhares de admiradores em todo o país. Indiscutivelmente, formou com Cazuza a mais brilhante dupla de poetas surgida no balanço do Rock Brasil, cujos contornos se tornaram mais nítidos no início da década de 1980.
A bagagem cultural haverá de ter sido um dos fatores que levaram Renato a se tornar um referencial de qualidade intelectual entre os roqueiros nacionais. Outra característica importante era o apuro estilístico de que não abria mão, quando se tratava de produzir alguma nova composição. A letra de Índios, um dos hits do disco Dois (1986), por exemplo, levou mais de um ano até ser considerada pronta.
A obra de Renato Russo - um legado de genialidade poética e de integridade artística - permanecerá atual, influente e inesquecível. Principalmente para aqueles tantos homens e mulheres que, como ele, crêem que "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã".
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Porta-voz da liberdade de manifestação social
Renato Russo começou a se embalar definitivamente entre os acordes distorcidos das guitarras no final dos anos 70, na Capital Federal, com o grupo Aborto Elétrico - experiência punk substituída pelo Legião Urbana, que formou com Marcelo Bonfá, Dado Villa-Lobos e Renato Rocha, o "Negrete" (que logo depois se desligou do grupo). O primeiro LP, homônimo à banda, lançado em 1984, emplacou sucessos ainda executados nas rádios, como Soldados, Ainda é cedo e a já clássica Geração Coca-Cola. As canções tinham ritmo, harmonia e melodia de fácil assimilação, e eram complementadas por letras que destoavam das trivialidades e irreverências juvenis de alguns grupos de rock.
Enquanto a banda conquistava mais e mais fãs, Renato ia marcando presença no cenário musical não apenas como letrista e cantor, mas como cidadão participante. Suas sempre instigantes - às vezes controversas - visões de mundo, suas multifacetadas experiências de vida, sua luta contra os excessos de álcool e drogas e sua condição de homossexual assumido, tudo isso delineou, ao lado de uma genuína rebeldia, o mito Renato Russo. Que sempre tinha o que dizer sobre política, comportamento, música, literatura e, claro, o trinômio sexo, drogas e rock' n 'roll. Nada escapava ao crivo de suas opiniões, impregnadas de traços que conformavam o imaginário das frações mais críticas e indignadas (nem por isso menos românticas) de sua geração.
E não ficava apenas no discurso por uma sociedade mais justa e fraterna. Os encartes de discos incluíam páginas com a divulgação de entidades humanitárias e de defesa de minorias. Em 1994, Renato Russo doou metade da receita obtida com a venda do CD The Stonewall Celebration Concert para a Ação da Cidadania contra a Miséria e pela Vida, então liderada pelo sociólogo Herbert de Souza (Betinho).
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O anonimato da despedida
Renato Russo morreu no Rio de janeiro, em 12 de outubro de 1996, por complicações
decorrentes da Aids, segundo um dos médicos que o assistiam desde 1990. E
nos belos versos de A Via-láctea
,
incluída no CD A tempestade, ele traduziu
- numa auto-referência poética, já presente no título do disco - o sofrimento
que por certo lhe transpunha a alma.
A mãe do cantor, Maria do Carmo, disse que esse nome foi escolhido para o CD porque havia uma tempestade dentro de Renato. Segundo ela, o filho chegou a lhe dizer, antes de morrer, que só tinha sido feliz na infância.
Renato passou os últimos dias recluso em seu apartamento numa rua arborizada de Ipanema, no Rio de Janeiro, acompanhado apenas pelo pai e por um enfermeiro, tendo se recusado a prosseguir um tratamento à base de coquetéis de drogas. Seu corpo foi cremado, segundo seu desejo, e as cinzas espalhadas nos jardins do sítio do paisagista Roberto Burle Marx, na zona oeste da cidade.
Com www.legiaourbana.com.br e legiaourbana.hpg.br